31/08/2026

Breve história da cosmética através das civilizações

Muito antes de existirem séruns em frascos de vidro, cremes em bisnagas ou ativos desenvolvidos em laboratório, seres humanos já transformavam plantas, minerais, óleos, gorduras, ceras e resinas em preparações para o corpo.

Algumas preparações protegiam a pele. Outras perfumavam. Pigmentos modificavam a aparência dos olhos, lábios, cabelos e pele. Em determinados contextos, pintar o corpo podia comunicar identidade, participar de rituais ou simplesmente expressar beleza.

Por isso, contar a história da cosmética apenas como uma história de vaidade seria simplificá-la demais.

Ao longo do tempo, aquilo que hoje colocamos sob a mesma palavra — cosmético — esteve relacionado à higiene, à medicina, à espiritualidade, aos padrões de beleza, à posição social e à relação de diferentes povos com o ambiente ao seu redor.

E muito antes de existir uma indústria cosmética, já existia algo que continua no centro dela até hoje: o conhecimento sobre as matérias-primas e sobre as diferentes formas de cuidar do corpo.

Kemet: beleza, cuidado e proteção

No nordeste da África, a civilização que floresceu às margens do Nilo e que hoje conhecemos como Egito Antigo deixou alguns dos registros arqueológicos mais conhecidos sobre o uso de cosméticos.

Kemet — Kmt nas transliterações do egípcio antigo, expressão relacionada à “terra negra” fértil do vale do Nilo — é um dos nomes encontrados nos registros egípcios para esse território.

E os cuidados com o corpo ocupavam um espaço significativo em seu cotidiano.

Escavações encontraram recipientes para cosméticos, paletas, aplicadores, pentes, pinças, espelhos, lâminas e outros objetos de higiene pessoal. Um conjunto preservado pelo Metropolitan Museum of Art, datado aproximadamente de 1550–1458 a.C., reúne em uma mesma cesta um recipiente e aplicador de kohl, pinça, lâmina, pedra de afiar e espelho.

Homens e mulheres utilizavam cosméticos, e os cuidados não desapareciam necessariamente com a morte: recipientes e utensílios também eram depositados em tumbas. O uso cosmético podia estar relacionado tanto ao embelezamento em vida quanto às concepções de renovação no pós-vida.

Entre os produtos mais conhecidos estava o kohl, utilizado ao redor dos olhos.

Recipiente e aplicador utilizados para kohl no Egito Antigo. Crédito: The Metropolitan Museum of Art, Public Domain.

Diferentes minerais podiam ser triturados até formar pós finos. Entre eles estavam a galena, de tonalidade escura, e a malaquita, responsável por pigmentos verdes. Um recipiente pertencente a Hatnefer, datado de aproximadamente 1491–1473 a.C., ainda preservava resíduos identificados como galena quando foi encontrado.

Esses pigmentos não tinham apenas função estética.

Em um território de forte exposição solar, poeira e insetos, preparações para os olhos também estavam associadas à proteção. Estudos e registros arqueológicos sugerem uma interessante sobreposição entre aquilo que hoje separaríamos em categorias como cosmética, higiene e cuidado.

Conjunto de cuidados pessoais do Novo Império egípcio, contendo recipiente e aplicador de kohl, espelho, navalha, pinças e pedra de amolar. Crédito: The Metropolitan Museum of Art, Public Domain.

O clima também influenciava os cuidados com a pele. Óleos e unguentos perfumados eram aplicados sobre o corpo, ajudando a contrapor os efeitos do sol, da poeira e do ressecamento.

Pigmentos avermelhados podiam ser utilizados nas bochechas e nos lábios, enquanto a henna era empregada para colorir partes do corpo. Fragrâncias e óleos aromáticos também faziam parte desse universo.

O que encontramos em Kemet é uma história sobre embelezar e, ao mesmo tempo, cuidar. Uma distinção que parece bastante contemporânea — separar aquilo que “trata” daquilo que apenas modifica a aparência — nem sempre existiu de forma tão clara.

Povos originários das Américas: quando o corpo também é linguagem

Falar sobre os povos originários das Américas exige um cuidado importante. Não existiu uma única “cosmética indígena”.

As Américas abrigam centenas de povos, línguas, territórios e sistemas de conhecimento diferentes. Mesmo matérias-primas semelhantes podem assumir funções e significados distintos entre diferentes culturas. Por isso, talvez seja mais interessante observar alguns exemplos.

No território que hoje chamamos Brasil, duas matérias-primas aparecem em diferentes tradições de pintura corporal: urucum e jenipapo.

Registros preservados pelo Museu Nacional dos Povos Indígenas documentam, por exemplo, pessoas do povo Bororo pintando o corpo com urucum e pessoas do povo Umutina utilizando tanto urucum quanto jenipapo.

Mas um exemplo particularmente interessante vem dos Wajãpi, povo indígena do Amapá.

Em sua tradição gráfica Kusiwa, os materiais empregados nas pinturas corporais incluem sementes de urucum, suco de jenipapo verde, resinas perfumadas e, tradicionalmente, gorduras de origem animal.

O urucum (Bixa orellana) produz pigmentos que variam entre tons alaranjados e vermelhos. Já o jenipapo (Genipa americana) produz uma coloração escura sobre a pele após a reação de seus compostos com ela.

A matéria-prima, entretanto, é apenas uma pequena parte da história. Reduzir essas práticas a uma espécie de “maquiagem ancestral” faria com que perdêssemos justamente aquilo que elas têm de mais interessante. Entre os Wajãpi, por exemplo, os grafismos Kusiwa formam um sistema próprio de expressão e conhecimento, no qual aparecem representações relacionadas a animais, objetos e elementos de seu universo. A pintura também possui dimensão estética e criativa.

Em outros povos e contextos, pinturas e modificações corporais podem estar relacionadas a diferentes momentos da vida, cerimônias, pertencimento, proteção ou organização social. Ou seja: o corpo também pode (e deve) ser uma superfície de comunicação.

E essa talvez seja uma das maiores diferenças entre observar essas práticas a partir de sua própria cultura ou simplesmente tentar encaixá-las no conceito contemporâneo de cosmético. O uso de plantas, pigmentos e substâncias sobre a pele carrega história, conhecimento, relações sociais e formas de compreender o mundo.

Grécia Antiga: beleza, saúde e cuidado corporal

Na Grécia Antiga, encontramos outra relação interessante entre corpo e cuidado. A saúde era valorizada e estava relacionada não apenas à alimentação, mas também ao exercício físico e à higiene.

E o azeite de oliva, tão associado atualmente à alimentação mediterrânea, também fazia parte dos cuidados corporais. Durante os exercícios, óleos eram espalhados sobre o corpo. Depois da atividade, uma ferramenta curva chamada strigil era utilizada para raspar da pele a mistura de óleo, suor e sujeira. O banho também podia ser acompanhado por massagens, preparações suavizantes e óleos aromáticos.

Strigil, instrumento utilizado na Grécia Antiga para remover da pele a mistura de óleo, suor e impurezas após exercícios físicos ou banhos. 

 

O Museu da Acrópole registra ainda que mulheres utilizavam cosméticos e pós preparados a partir de matérias-primas vegetais, animais e minerais. Curiosamente, médicos produziam unguentos utilizando matérias-primas de origens semelhantes.

Mais uma vez, encontramos uma fronteira pouco definida entre cosmética e cuidado medicinal. Essas preparações exigiam inclusive seus próprios utensílios.

Pós podiam ser triturados em almofarizes de mármore; pequenas espátulas, colheres e instrumentos de vidro, osso ou metal eram utilizados para dosar, misturar e aplicar produtos. Perfumes e unguentos eram guardados em recipientes de cerâmica, vidro ou alabastro.

Cuidar do corpo já envolvia, portanto, formulação, processamento, armazenamento e aplicação. Mas a cosmética grega também refletia os padrões sociais de beleza de seu tempo.

Pigmentos eram utilizados para modificar a aparência da pele e do rosto, e a busca por uma tez mais clara esteve presente em determinados períodos. Algumas preparações chegaram a utilizar compostos de chumbo — algo que, com o conhecimento toxicológico atual, sabemos representar um risco importante à saúde.

Esse é um lembrete interessante de que “ancestral” também não significa necessariamente “seguro”.

Conhecimentos tradicionais podem guardar observações valiosas sobre matérias-primas e processos, mas a ciência contemporânea nos permite avaliar aquilo que povos antigos não tinham instrumentos para medir: toxicidade, exposição cumulativa, estabilidade, contaminação e muitos outros fatores.

É justamente aí que história e ciência podem conversar sem que uma precise substituir a outra.

China Antiga: uma cultura cosmética sofisticada muito antes da era moderna

Do outro lado da Ásia, registros escritos e descobertas arqueológicas mostram que a China desenvolveu uma cultura cosmética extremamente rica muito antes do surgimento da indústria moderna. Textos do período anterior à unificação imperial chinesa, em 221 a.C., já mencionavam pós faciais, produtos para sobrancelhas, lábios e cabelos.

E durante a Dinastia Han (202 a.C.–220 d.C.), essa cultura se tornou ainda mais sofisticada.

Fontes históricas descrevem preparações que poderiam ser aproximadas, utilizando nossa classificação atual, de hidratantes faciais, condicionadores capilares, pós, rouges, cosméticos para sobrancelhas, produtos labiais e fragrâncias.

Recipiente encontrado em um túmulo aristocrático na China contendo resíduos de uma preparação cosmética facial datada de aproximadamente 2.700 anos. Fonte : Han et al., The rise of the cosmetic industry in ancient China: Insights from a 2700-year-old face cream, Archaeometry, 2021.

 

 

 

Descobertas arqueológicas também revelaram estojos de higiene e beleza feitos em madeira laqueada, alguns com diferentes compartimentos destinados a cosméticos, espelhos, pentes, joias e outros objetos pessoais. Mas talvez o mais fascinante seja aquilo que a química moderna está conseguindo descobrir dentro desses recipientes.

Em 2026, pesquisadores analisaram resíduos encontrados em uma tumba da Dinastia Han no sítio arqueológico de Kongwangshan, na atual província de Jiangsu.

A formulação continha mica finamente processada, ingredientes de origem vegetal e gordura animal, provavelmente suína.

E há outro detalhe importante: a tumba não pertencia à elite.

Os pesquisadores sugerem que, embora os cosméticos tenham sido anteriormente mais associados aos grupos de maior status social, durante a Dinastia Han seu consumo começou a alcançar parcelas mais amplas da população.

Outras descobertas arqueológicas e registros históricos mostram ainda o emprego de materiais como pó de pérola, mica e branco de chumbo, combinados a gorduras e matérias-primas vegetais.

Assim como aconteceu em outras civilizações, determinados ideais estéticos estimularam o uso de ingredientes que hoje sabemos serem tóxicos — entre eles, novamente, compostos de chumbo.

Ao mesmo tempo, o nível de processamento encontrado em algumas formulações revela algo surpreendentemente familiar para quem trabalha hoje com cosméticos: matérias-primas eram selecionadas, trituradas, refinadas, combinadas a veículos oleosos e armazenadas em embalagens específicas. Mudam os instrumentos e o conhecimento disponível, mas permanece uma ideia fundamental: formular é transformar matérias-primas para modificar a forma como elas interagem com o corpo.

Então, quando surgiu a cosmética?

Talvez essa seja uma pergunta sem uma resposta única. O impulso de cuidar, pintar, perfumar, limpar ou modificar o corpo é muito mais antigo do que aquilo que hoje chamamos de indústria cosmética. E diferentes povos chegaram a soluções diferentes porque observavam ambientes diferentes.

No vale do Nilo, minerais transformavam-se em pigmentos e óleos ajudavam a cuidar da pele exposta a um ambiente quente e seco.

Na Grécia, o azeite fazia parte tanto da alimentação quanto do cuidado corporal.

Na China, minerais, gorduras e plantas eram processados em formulações cada vez mais sofisticadas.

Entre povos originários das Américas, plantas como urucum e jenipapo transformavam — e continuam transformando — o corpo em suporte para cor, grafismo, identidade, estética e conhecimento.

A história da cosmética é, portanto, também uma história sobre território.

Sobre observar aquilo que existe ao redor e aprender a transformar essas matérias-primas.

Ancestralidade e ciência não precisam ocupar lados opostos

É tentador olhar para o passado e imaginar uma época em que tudo era “natural” e, portanto, melhor. Mas a própria história da cosmética mostra que essa oposição é simplista.

Civilizações antigas acumularam conhecimentos extraordinários sobre plantas, minerais, pigmentos, óleos e processos de transformação. Ao mesmo tempo, utilizaram substâncias que hoje sabemos serem tóxicas.

A ciência não precisa apagar o conhecimento construído antes dela. Ela nos oferece novas ferramentas para compreendê-lo.

Hoje conseguimos identificar moléculas presentes em um extrato vegetal, estudar mecanismos de ação, medir estabilidade, controlar contaminações, avaliar toxicidade e desenvolver processos que tornam uma formulação mais segura e eficiente.

Talvez a cosmética contemporânea seja mais interessante justamente quando não precisa escolher entre passado e futuro. Podemos reconhecer os conhecimentos desenvolvidos por diferentes povos, entender as matérias-primas que seus territórios ofereceram e, ao mesmo tempo, utilizar aquilo que a ciência atual nos permite saber sobre elas.

Porque, de minerais triturados em uma paleta de pedra a ativos produzidos em laboratórios, existe algo que atravessa milhares de anos de história:

a vontade humana de compreender o próprio corpo e encontrar novas maneiras de cuidar dele.

A tecnologia mudou. Os ingredientes mudaram. Os recipientes mudaram. Mas seguimos observando a pele, as plantas, os minerais e o mundo ao nosso redor para responder essencialmente à mesma pergunta: como podemos cuidar do corpo com aquilo que a natureza e o conhecimento do nosso tempo nos oferecem?

 


Referências para aprofundar

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Kohl Jar of Sithathoryunet. Middle Kingdom, c. 1887–1813 a.C.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Kohl Jar – Hatnefer. New Kingdom, c. 1491–1473 a.C.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Cosmetic Set of Kohl Tube and Applicator, Razor, Tweezers, Whetstone, and Mirror. New Kingdom, c. 1550–1458 a.C.

ACROPOLIS MUSEUM. Bodycare. Coleção temática sobre saúde, higiene e cosmética na Grécia Antiga.

MUSEU NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS. Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica. Acervo bibliográfico, 2002.

MUSEU NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS. Acervo documental sobre pintura corporal entre os povos Umutina e Bororo.

NATIONAL MUSEUM OF THE AMERICAN INDIAN – SMITHSONIAN INSTITUTION. Face/body paint and container. Canelos Kichua Collection.

XU, X. et al. Cosmetics use in the North China Plain of Han Dynasty: a case study from Kongwangshan site. npj Heritage Science, v. 14, 2026

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